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O desperdício de alimentos não é um problema ambiental. É um problema de gestão

Por Anderson Ozawa

O mundo pode perder US$ 540 bilhões com desperdício de alimentos em 2026.

Esse número não é apenas grande. Ele é revelador porque mostra algo que o varejo ainda evita encarar: o desperdício não é exceção, é estrutural.

E mais do que isso, não é um problema de sustentabilidade. É, antes de tudo, um problema de negócio.

O maior erro: tratar desperdício como “custo inevitável”

Ao longo da cadeia ou ciclo de vida do produto — da produção ao ponto de venda — o desperdício continua sendo tratado como parte do jogo.

Perde-se na colheita.
Perde-se no transporte.
Perde-se no armazenamento.
Perde-se na loja.

E no final, essa perda é diluída no resultado, como se fosse inevitável.

Mas não é.

Quando um setor chega ao ponto de ter custos de desperdício equivalentes a até 32% da receita no Brasil, não estamos falando de exceção operacional. Estamos falando de falta de governança.

O problema não é falta de tecnologia. É falta de visibilidade

Um dado chama atenção: 61% das empresas ainda não têm clareza sobre onde o desperdício acontece. Esse é o ponto central.

Não se gerencia o que não se mede e, no varejo alimentar, grande parte das perdas continua invisível.
• produtos que vencem no estoque,
• erros de armazenagem,
• falhas de reposição,
• excesso de compra,
• quebra operacional,
• perda no transporte.

Tudo isso acontece todos os dias.
Mas raramente é tratado como prioridade estratégica.

O desperdício não dói no momento em que acontece: dói no resultado, quando já é tarde.

Logística e estoque: onde o dinheiro desaparece

A maior parte das perdas não acontece no consumidor, acontece antes.

A logística e a gestão de estoque concentram alguns dos principais gargalos:
• transporte sem controle adequado,
• armazenagem inadequada,
• previsão de demanda imprecisa,
• processos ainda manuais (67% das empresas ainda operam assim).

Isso explica por que categorias como carnes,frutas e verduras e panificação, são as mais críticas.

⁃ Porque são sensíveis.
⁃ Porque têm prazo.
⁃ Porque não perdoam erro.

O paradoxo do varejo: vende mais, perde mais

Existe um comportamento recorrente no varejo alimentar: quanto mais vende, mais perde, especialmente em períodos de alta demanda, promoções e sazonalidade.

O aumento de volume traz:
• mais ruptura,
• mais avaria,
• mais erro,
• mais desperdício.

E o mais perigoso: isso acontece enquanto o faturamento cresce, porque o volume mascara a ineficiência.

Exemplo prático: quando o crescimento esconde a perda

Em uma operação supermercadista onde atuamos, o aumento de vendas em perecíveis foi comemorado como avanço de performance.

Mas ao analisar o resultado consolidado, ficou evidente que a margem não acompanhou o crescimento.

Parte do ganho foi consumida por:
• excesso de compra sem ajuste fino de demanda,
• perda por vencimento,
• falhas no giro de estoque.

Ou seja, o crescimento existiu, mas, o resultado não.

Após revisão de previsão de demanda e ajuste de reposição, o mesmo volume passou a gerar mais margem e isso, sem aumentar venda.

Outro exemplo prático: controle simples, impacto direto

Em outra operação onde implantamos governança operacional, o problema estava concentrado em frutas e hortaliças.

Altas perdas eram tratadas como “característica da categoria”.

A mudança não foi tecnológica. Foi operacional:
• ajuste de frequência de reposição,
• melhoria na armazenagem,
• controle mais rigoroso de exposição,
• acompanhamento diário de perdas.

O resultado foi redução consistente do desperdício com impacto direto na margem.

⁃ Sem aumentar venda.
⁃ Sem reduzir sortimento.
⁃ Apenas operando melhor.

Desperdício não é ambiental. É financeiro

Existe um discurso crescente sobre sustentabilidade, muito importante.

Mas no varejo, a mudança não virá por consciência ambiental. Ela ocorrerá por pressão de resultado.

Desperdício é margem que foi embora.

É dinheiro:
• comprado,
• armazenado,
• transportado,
• e descartado.

A provocação que o setor precisa ouvir é: enquanto o desperdício for tratado como efeito colateral, ele continuará existindo.

Enquanto não houver visibilidade, não haverá controle.

Enquanto não houver controle, não haverá margem.

O problema não é o alimento que se perde. É o modelo de gestão que permite que ele se perca.

É um retrato claro de um sistema que ainda opera com baixa disciplina e pouca visibilidade.

O desperdício global de alimentos não é apenas um número de US$ 540 bilhões.

A oportunidade não está apenas em reduzir perdas: está em transformar perda em resultado.

E isso não exige revolução tecnológica. Exige algo mais simples e mais difícil: governança, método e execução.

Porque no final, não é sobre o que se vende, mas sim, sobre o que se preserva depois da venda.

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